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O tapa-olho

Luis Fernando Verissimo

A Suzi já tinha aparecido no grupo com um tisico nuclear, que impressionara a todos não com seu conhecimento mas com sua fome. Já tinha aparecido com um toureiro cearense, uma condição nunca bem explicada. E um dia apareceu com um homem de tapa-olho. Moreno, estatura mediana, seus 30 e alguns anos, e um olho tapado por um retângulo preto. Apresentou:

- Turma, este é o Cliomar. Cliomar, a turma.

Oba. Oi. E aí? Muito prazer. Etc. E o Cliomar sentou-se em meio a uma saraivada de perguntas, todas, claro, provocadas por aquela curiosidade, que a maioria só conhecia de filme de pirata: um tapa-olho. O que você faz? E daqui mesmo? Qual é o teu time? Perguntas e mais perguntas. Menos a que todo mundo gostaria de fazer mas não sabia se devia:

- E esse tapa-olho?

flor

Depois, a Suzi contou que ele no gostava de falar no tapa-olho. Só uma vez se referira a “esta minha tragédia”, apontando para o olho tapado, mas no entrara em detalhes. Outra vez dissera “tive uma vida movimentada, como você pode imaginar”, e também apontara para o olho tapado, mas deixando os detalhes da sua vida movimentada para a imaginação da Suzi. Que estava apaixonada. Nunca conhecera um homem assim. Nem o ventríloquo alemão. Nem o ex-padre que não escolhia hora ou lugar para fingir que mordia seu pescoço, fazendo “nham!” Alguém perguntou:

- E você no aproveitou quando ele estava dormindo para olhar em baixo do tapa-olho?

- Tá doido! – protestou a Suzi. E completou:

- E quem diz que nós estamos dormindo juntos?

flor

Se a Suzi não estava dormindo com o cara, queria dizer que o caso era sério. E a turma entendeu o entusiasmo da Suzi pelo Cliomar. Ele era mesmo atraente, com aquele seu ar misterioso, com aqueles seus silêncios cheios de implicações, com aquele seu tapa-olho. Toda a turma estava fascinada por ele, O Márcio, que trabalhava numa editora, chegou a sugerir que Cliomar escrevesse alguma coisa sobre suas experiências, sobre os lugares em que andara e as aventuras que vivera, só não dizendo “sobre esse tapa-olho” em respeito à sua discrição em tratar do assunto. Que só aumentava o seu mistério.

Cliomar apenas sorriu com a sugestão do Márcio, e disse:

- Não sei se o mundo está preparado para as minhas confissões...

Que histórias ele não teria para contar!

flor

No outro dia a Suzi apareceu sem o Cliomar. Desanimada, fazendo beicinho, desiludida da vida. Contou:

- Aconteceu.

- O que, Suzi.

- Dormimos juntos.

- E ai? Como é que foi?

- Foi bom. Só que...

- O quê?

- Ele tirou o tapa-olho para dormir, depois de me fazer jurar que não espiaria o que tinha embaixo.

- E aí?

- Hoje de manhã acordou, se distraiu e botou o tapa-olho no outro olho.


Domingo, 22 de novembro de 2009.



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